Sem título #6
“Ademais, toda desgraça pode ser suportada, e não há situação tão péssima da qual não seja possível sair” Ivan Turgueniev
Achou que eu não ia mais voltar, não é? Pois quase acertou, nem sei o que me traz aqui. Bem, aqui vão os devaneios das últimas semanas.
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Acho que essa foi a minha primeira “ressaca literária”. Meu marido disse que foi mais uma mistura de estafa mental e física, fruto da entrega de muitos trabalhos e das noites em claro por conta do nascimento dos caninos do meu bebê. Seja o que for, ler ficou difícil, as sentenças se perdem num limbo de pensamento de atividades que tenho a realizar ou acabo caindo no sono. Disseram que eu só precisava dormir um pouco e tentar ler algo mais leve.
Alguém sabe de um chá cura ressaca literária (gengibre, pepino, água de coco, espinafre, etc) ou um trago-seu-amor-pela-leitura-em-três-dias?
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Minha pilha de “não, amor, não devolva esse pra estante que eu estou lendo!” (Os que se acumulam por outros cantos da casa não contam)
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Minha mãe me pegou lendo “O Mestre e Margarida” e me advertiu que eu não deveria ler livros sobre o capiroto em Moscou e sim livros de maternidade, já que agora eu era uma mãe. Não é da minha natureza desobedecer (mesmo discordando) e lá fui eu atrás de livros para mães, adquiri uma dezena deles pelo Kindle e cacei um ou outro na minha biblioteca.
Lista de leitura maternal criada, peguei o primeiro. Mais enfadonho que aquilo só Jane Austen (desculpem-me os fãs). Tentei um segundo, mais vendido, melhor avaliado, não foi diferente. Ainda fui num terceiro, abandonei no 3%.
Não é que os livros escritos para as mães sejam ruins, só não são Moby Dick. Eu preferi caçar baleias com Ahab.
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Diferente de mim, muita gente vai atrás de livros não porque a mãe mandou, mas porque um “influenciador literário” assim o disse. Assisti um vídeo algum tempo atrás que falava da tendência virtual de comunidades literárias “bombarem” livros apenas por suas indicações superficiais de 30 segundos (muito bom! Amei! Muito interessante!), e que até existe uma profissão de curador literário para famosos que escolhe as obras que sairão debaixo do braço de um cantor ou modelo (my dream job).
Eu acho isso muito engraçado. O livro como objeto físico transcendeu a simples ideia de conter a informação registrada que alguém busca para se tornar literalmente um «objeto» de prestígio Por isso a preocupação com as capas, a edição, as avaliações, as ecobags, porque é mais importante alguém te ver lendo do que a leitura de fato.
Bem, eu nunca tive Tik Tok e ando tão alienada (graças a Deus!) que a última coisa que me preocuparia seria um livro “em alta”. Minha lista de leitura é feita de indicações que encontro nos próprios livros que leio, de amigos próximos que sabem do que gosto e de professores que acompanho.
Detesto a ideia de ler algo porque seria obrigada. Levo meu interesse pessoal muito a sério, afinal, ele é de responsabilidade solamente minha. Somos naturalmente levados a fazermos diversas coisas desgostosas o todo tempo. Por que o que deveria ME entreter tem que ser escolhido por outro (que geralmente é uma empresa que apenas se preocupa com lucro cof cof)? Por que haveria de me entediar por livre e espontânea pressão? Por que seguir uma tendência para um passatempo?
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João: Meu bem, encontrei algo que pode te ajudar durante as madrugadas com o Lucas. É uma luzinha que dá pra levar por aí e depois pendurar na parede de novo.
Letícia: Seria uma ótima ideia se Luquinhas não estivesse tão sensível às luzes. Se ele vê uma, desperta e demora muito pra voltar a dormir. Acho que não é a melhor opção. Eu precisaria de algo que eu não precisasse segurar tão perto dele…
João: O que voce quer então? Uma luz que te siga? Como assim algo que não precise levar.
Letícia: Exatamente! Preciso de algo que me siga brilhando… Tipo uma fada.
João: Entendi… Posso deixar a luzinha pra lá então? Era de carregador mesmo…
Letícia: Carregar??? Pra mim tudo tinha que ser ligado a uma tomada, acho um horror ter que carregar coisas. Detesto a portabilidade.
João: Isso vai parar no Leticismos, né?
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Meu filho aprendeu a falar. Agora quando abre os olhos pela manhã já o faz tagarelando, o que dura até a hora de dormir (e às vezes, até durante o sono).
Num diálogo, pergunto:
- Filho, a sua irmã é menina! E você, é o quê?
- Peixe.
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Não é incomum eu pensar que não nasci pra ser mãe. Tenho recebido conselhos e sugestões de autopiedade e misericórdia para com minha própria situação, afinal, sou uma gestante que já tem uma criança e não durmo mais de 4h seguidas há pelo menos um ano e meio.
Eu tento ver por esse lado e, nos momentos de lucidez, sei que estão corretos. Mas a imprudência do cansaço sempre me leva a pensar que eu errei de “vocação”, que eu seria uma ótima carmelita dormindo a noite toda.
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Hora de dormir
João: Filho, quem vai te fazer dormir hoje?
Luquinhas: Deus (apontando para o alto)
(Fui eu quem o fiz dormir).
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Sei que reclamo de dormir pouco, mas é que na maternidade esse foi o único problema que tive. A privação de sono vai te enlouquecendo aos poucos, no início você só passa os dias meio cansado, depois começa a ficar irritadiço, não lembra mais das coisas, eu cheguei a ter alucinações (vi meu bebê em forma de baleia numa madrugada enquanto lia Moby Dick).
Meu menino completou 1 ano e 3 meses há pouco e eu não esperava que os muitos despertares fossem durar tanto tempo. Entretanto, bem nessa semana, eles começaram a diminuir e nas poucas vezes que ele acordou de noite, percebi que ele está perdendo seus traços de bebê e conquistando uma carinha de criança.
No domingo eu tinha prometido a mim que não iria mais murmurar em relação à esse assunto, que não duraria muito mais, que eu tinha que ter paciência. E agora me pego com saudades das nossas noites juntos. Só eu, meu bebê e as motos entregando lanches aos famintos da madrugada. Foram durante esses momentos de privação de sono que li “A amiga genial”, que pensei muitas das newsletters, que li Neil Postman, “A menina sem estrela” e que rezei em silêncio.
No fim, ganhei muito. Sou melhor depois das madrugadas em claro, mais eu. Obrigada, filho.
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Favoritos da quinzena do tempo que fiquei sem escrever
Leituras
Memórias de um caçador (Ivan Turgueniev)
Filmes
Rambo III
Cold War (adorei!)
Textos
170. Ar; palavras; mais palavras; LPs; Roberto Campos; Sidney Magal; tradição; link (Orlando Tosetto)
Resumo semanal: Sono, orquídeas, brinquedos de criança (Juliana Amato)
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Obrigada pela leitura! Nos vemos em breve agora que peguei de vez (será?) para terminar a série sobre tecnologia. Até!


