Sem título #8
“fecundar-me as cantigas, coração meu - repara como crescem espigas entre escombros humanos…” Bruno Tolentino
Se eu não me engano, eu tinha uns 16 anos. Estava em uma daquelas baterias de redações pré-vestibulares, eram algumas por semana. Eu gostava muito daquela pressão, gostava de escrever algo repentinamente num tema totalmente aleatório sem poder fazer nenhuma consulta sem ser aos meus próprios miolos, tinha um ar de aventura.
Desse tema eu não me esqueço “Privacidade nas redes sociais”, redigi o rascunho, passei a limpo à caneta, mas os 50 minutos passaram voando e na pressa os acentos pontuados apressadamente acabaram ficando nas consoantes e o texto, sem título.
Ao receber a devolutiva, nota máxima, satisfação. Mas a caneta vermelha não tinha rabiscado apenas o 1000, soma característica de correção do Enem, na primeira linha onde o nominavél deveria ter sido nomeado a professora escreveu em maiúsculo “SEM TÍTULO”. O meu regurgito verbal curricular não tinha nome, era bom, excelente, mas sem nome. Assim como essas miscelâneas aperiódicas que publico aqui, só uma bagunça sem título.
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À primeira vista pareço apenas uma jovem mãe inofensiva, quase sempre despenteada e certamente desatenta. Mas no meu interior vive uma guerreira, uma incansável militante da grande batalha do nosso tempo: a Cruzada Antitecnopólio. É velado porque a general anti-sistema só aparece em rodas de conversa com os amigos ou quando meu marido almoça lendo o Twitter.
Não sei se as ideias Postianas do Tecnopólio são evidentes pra todo mundo, para mim a prova cabal de sua existência é que diante da minha resistência, o abismo olhou de volta. Só neste ano minha TV quebrou, junto da minha air fryer, o aspirador, o ar condicionado, fones de ouvido Bluetooth e por fim meu celular. Fiquei sem o último por quase 2 meses.
No fim, a realidade não se tornou tão insípida quanto eu pensava, se alguém queria falar comigo ligava pro meu esposo e se a conversa fosse muito longa, marcava um encontro pessoal.
Deixo-vos a maior das considerações: a vida sem WhatsApp é muito mais bonita.
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Toda a minha juventude foi distante de meninas, nunca entendi e nem fui entendida, minhas poucas amigas se mudavam pra bem longe e o contato não se mantinha. Mas essa criancice tinha de ficar para trás, é entre os juvenis que os papéis de gênero não tem muita forma, afinal, brincadeiras não costumam exigir esse tipo divisão.
Essa demanda adulta, de uma rede de companheirismo feminina me afligia um pouco dado minhas experiências anteriores. Mas, para minha surpresa, a maioridade também trouxe boas mulheres para minha caminhada. Uma dessas serendipidades é minha comadre, que mal olha o WhatsApp, mas por causa da minha falta de celular baixou até o Telegram.
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Nem trocamos olhares depois de um dia tão longo e de tantos cansaços. Eu fico no meu canto, dando de mamar. Você pende de um lado pro outro com o menino no colo, recitando ternas rezas.
Há, entretanto, um momento de coincidência em meio à tanta exaustão. “Agora a mamãe vai cantar pra você dormir”, você diz. Quando começo a melodia, você me acompanha, meio sem por quê. Já está cansado e meio tonto, depois de trabalhar tanto, não precisava cantar também. Mas nos juntamos, eu com meu desatino, você com seu desafino. Entrelaçados pela voz, embalamos os meninos. Nos despedimos do dia, cumprimentamos as estrelas e cigarras.
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Numa tarde nublada, enfurnados no quarto, brincávamos nós três. Parecia que toda a minha força vital tinha se esvaído com a criatividade necessária para entreter dois bebês com idades tão próximas mas fases de desenvolvimento tão distintas. A caçula queria mamar, pedi ao mais velho um pouco de paciência e que ficasse brincando em sua cama.
Quando me apercebo do silêncio (sempre suspeito em crianças) olho de novo. O jacaré de pelúcia estava embalado junto ao seu peitoral infantil e ele tinha o olhar perdido. Ao cruzarmos olhares, diz: estou dando mamazinho pro jacaré, ele está com fome.
Ele conseguiu mimetizar até mesmo o meu olhar alheio enquanto amamento, hay registro:
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Conversando com a avó do meu esposo o assunto eram filhos e suas idades complicadas.
Vó: É, essa idade dos filhos é muito difícil.
Eu: Qual? Quando bebês?
Vó: Não, 50 anos.
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Favoritos do tempo que fiquei sem escrever
Leituras
Middlemarch (George Eliot)
Maria Antonieta (Stefan Zweig)
Quatro Peças (Tchekov)
Rezas (João Filho)
Autópsia do Feminismo (Débora Luciano)
Filmes
In the Mood For Love (Prime Video)
A filha perdida (Netflix)
Textos
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Obrigada pela leitura, espero que a rotina nos permita um novo encontro em breve. Até!



Esse texto me abraçou. Não sei explicar.
Que texto aconchegante (me lembrou da Clarice). Bom saber que tem gente normal que cita Bruno Tolentino hahaha! Deus abençoe você, seu esposo e seus filhos!